Marguerite Baker, de RE7, era uma mãe comum. Ela cozinhava e cuidava da família. Antes da infecção, era atenciosa e dedicada à rotina da casa. Mas tudo mudou depois que a família foi infectada. Na cena do jantar, no início do jogo, Marguerite aparece completamente corrompida, mas, mesmo naquele ambiente grotesco, ainda é possível notar gestos de carinho materno. Ela esmaga uma barata, come e diz para Ethan que está bom, que ele pode comer também. Quando ele recusa, Jack, o patriarca da família, força a comida na boca dele. Marguerite fica desesperada, repetindo que ele não está comendo. Quando o marido manda ela se calar, ela responde que fez aquilo para ele. Depois, ela grita e sai da sala, e Jack chuta a cadeira dela. Fica claro que toda a violência daquela cena vem dele, e o que Marguerite sente é mágoa e frustração. O que mais me chama atenção é o forte contraste entre cuidado e monstruosidade. O que faz Marguerite ser vista como monstruosa além da aparência? E para quem isso acontece? No jogo, a casa representa a própria Marguerite, como se fosse seu corpo. As colmeias nas paredes são iguais às do corpo dela, os insetos obedecem a ela e todo o espaço parece uma extensão dela mesma, consumida pela pressão de ser a esposa perfeita, algo que a corroeu por toda a vida. Barbara Creed escreveu um livro inteiro mostrando que, quando o terror transforma a mulher em monstro, isso frequentemente tem relação com a maternidade (como em Alien, A Ninhada, Carrie, etc.). Segundo ela, existe um medo cultural do corpo materno porque ele é visto como algo “fora do controle”, já que o corpo cis com capacidade reprodutora, foco de Creed, gera vida e sangra, ultrapassando os limites que a sociedade define. Isso se conecta ao conceito de abjeção de Kristeva, que é tudo aquilo que causa repulsa porque ameaça as fronteiras entre “dentro e fora”, o que é considerado “limpo” e o que não é. Creed também destaca que esse medo é uma construção patriarcal, como tantas outras. Segundo ela, é a cultura que cria a associação entre o corpo materno e o abjeto, justamente por causa da função reprodutiva da mulher cis, e não por algo que a mulher tenha feito. Nenhuma mulher nasce abjeta. Uma das figuras que ela descreve é a Mãe Arcaica, que dá vida e, ao mesmo tempo, ameaça canibalizar ou reabsorver o que pariu (aqui falamos especificamente do útero). Creed também diz que essa figura não se define em relação ao homem, pois o útero não é falta de nada. O medo que ela provoca, como diz Kristeva, é o medo do poder de dar a vida. Voltando ao RE7, quando Marguerite morre, todos os insetos que ela gerou morrem junto, mostrando que a prole era apenas uma extensão do corpo dela. Além disso, anatomicamente, tudo se concentra em sua virilha, onde cresce um ninho de insetos igual ao das paredes. Marguerite "gera" enxames e, para derrotá-la, precisamos destruir esse ninho primeiro (bem específico, não?). Agora, se o terror muitas vezes transforma a mulher em um corpo que precisa ser destruído, isso passa a mensagem de que o corpo feminino é visto como um problema a ser controlado, e a solução sempre vem de fora, de alguém normativo que resolve com violência, como vemos em vários jogos, até mesmo fora do terror. Creed também observa que o monstruoso-feminino, apesar de tudo, quebra a ideia de que feminilidade é passiva. Indo além da monstruosidade física (e alguns homicídios, rs), essas mulheres são incontrolavelmente poderosas e assustadoras. Ela relembra que isso não torna essas imagens automaticamente feministas, pois falam mais do medo masculino do que do desejo feminino. Mas existe espaço para interpretação e reapropriação. Antes, Marguerite era uma mulher que ocupava o menor espaço possível, servia comida, aguentava desaforos e era humilhada pelo marido na frente das visitas. Depois, ela passa a dominar completamente o território e ocupa todos os espaços com sua presença e marca grotesca. Não estou dizendo que isso é bom, claro. Marguerite mata pessoas e serve gente à mesa para convidados desavisados. Mas repare no que a transformação libera: raiva. Aquela mesma Marguerite, que era agredida pelo marido, agora, com toda sua monstruosidade, grita e ocupa o espaço. Parece que a monstruosidade liberou algo que já estava ali, há muito tempo reprimido. Vamos nos lembrar de que isso é uma leitura sobre o corpo de uma mulher cis com capacidade reprodutiva, e Creed, em 1993, escreveu pensando nisso. Mas o mecanismo que ela descreve é uma leitura cultural imposta sobre certos corpos. Se for assim, a mesma lógica se aplica a mulheres trans, pessoas não-binárias, qualquer corpo visto como transgressor por não caber nesse padrão esperado. Creed não desenvolve esse ponto, mas acredito que o argumento dela permite. Mesmo assim, percebo que os jogos raramente permitem um final feliz para as mulheres monstruosas. Quando a mulher é poderosa e excessiva, a resolução do problema geralmente exige domesticar a monstruosidade, equiparando a paz dela à restauração de um corpo normativo (ou cisnormativo). Isso nos diz que o poder absoluto da abjeção não tem um final feliz. A mulher monstruosa não pode continuar monstra e ser feliz. Sendo assim, Marguerite nunca teve chance de continuar. Mas penso que podemos devolver pra ela o que o jogo não explorou, e talvez até negou: ler a Marguerite como raiva e rebelião, muito além da doença. E você, já jogou RE7? Como se sente sobre a representação da Marguerite no jogo?
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